Transgênero: Uma entrevista de alma com Theo Cavalcanti

O universo trangênero é um tema que já foi exposto e explicado pela mídia através de notícias, filmes, novelas e reportagens, mas apenas vamos entender alguém que vive ou viveu essa transição quando realmente nos interessarmos em ouvir a alma dessas pessoas. Neste momento, o Mundo Alma Livre convidou o homem trans Theo Cavalcanti para uma conversa de alma, hoje iremos além das etapas de um processo de entendimento, aceitação e transição, vamos mergulhar na alma do Theo para conhecer na essência e pluralidade o que é ser um homem transgênero.


transgênero
Theo Fish e Theo Cavalcanti

Em um mundo em que ainda somos classificados por rótulos e derivados, Theo fala sobre seu processo de autoconhecimento, nos apresenta seus amigos e compartilha o movimento T que se uniu para uma "vaquinha online" de mastectomia, ele e seus amigos se uniram para compartilhar e confraternizar o que nós do Mundo Alma Livre chamamos de "SER", aqui nós prezamos pela igualdade e liberdade, todos -sem exceção- devemos e temos o direito de SER, apenas isso basta para que a nossa existência seja plena; Ser quem somos na essência.

Aos 28 anos, cursando a faculdade de Biologia na PUC-RJ e namorando há quase 5 anos, Theo Cavalcanti não dispensa o bom e velho roteiro: comer, dormir e assistir desenhos em boa companhia.

Confira abaixo o bate papo com Theo Cavalcanti e conheça o movimento T que ajuda outros homens trans:


Theo, aqui no Mundo Alma Livre nós falamos muito sobre a importância de SER na essência e a importância do autoconhecimento para o processo de evolução do ser humano, na sua opinião quais foram as coisas/pessoas mais importantes no seu processo de autoconhecimento e o que você diria para o Theo de 5 anos atrás?

-  Em algum momento da minha vida eu simplesmente aceitei que eu seria mulher e que eu não tinha o que fazer, cortei o cabelo em 2016 e permaneci com aquela sensação de que ainda tinha algo errado comigo. Certo dia uma colega me apresentou o Bernado Enoch, assisti alguns vídeos dele e acabei achando os vídeos do Ariel Modara com quem eu me identifiquei ainda mais, esse foi o estalo. Apesar de encontrar uma possível resposta, tudo ainda era muito confuso e eu ainda não fazia terapia. Um dia minha mãe veio me perguntar o que eu tinha e eu falei: "Mãe, eu acho que sou trans", ela me fez algumas perguntas e eu pedi ajuda, busquei então a terapia. Foi na terapia que eu me entendi mais ainda e a própria psicóloga conversou com a minha mãe, o que ajudou muito nessa parte de compreensão, de me entender e entender o que ia acontecer quando eu começasse com os hormônios. Minha mãe sempre me apoiou em tudo e ela foi essencial na transição também, não vou dizer que foi fácil porque não foi, nem para mim e nem para ela. Hoje eu sou muito mais leve, muito mais tranquilo e bem melhor comigo mesmo. Minha mãe foi a peça fundamental para o meu equilíbrio e extremamente essencial nisso tudo, a partir da minha escolha de ser quem eu realmente sou, a convidei para participar do grupo Mães pela Diversidade onde ela já é quase uma militante. 

Para o Theo de 5 anos atrás eu diria: "Cara, pesquisa sobre as pessoas trans, elas existem e vão te ajudar no seu autoconhecimento. Você não está sozinho, existem pessoas como você e você vai conhecer pessoas maravilhosas nessa trajetória. Levanta essa cabeça e vai."



Além do apoio da psicóloga, você citou a sua mãe como a pessoa mais importante no seu processo de autoconhecimento, o que você diria para sua mãe hoje sobre o homem que você se tornou e qual foi a importância dela na formação do seu caráter?  

- Minha mãe é muito importante na minha vida e na da minha irmã também. É uma mãezona sabe? Passou poucas e boas quando ela era criança e nunca deixou faltar nada pra gente. Sempre nos criou com muito amor, ensinando o certo e o errado, nos guiando sobre o que devemos ou não fazer, muitas vezes deixando com que quebrássemos a cara pra aprender e nunca desistiu da gente. Sempre nos orientou e apoiou em nossas escolhas, incentiva na faculdade, empurra a gente sempre para frente. Apesar de eu não demonstrar tanto quanto deveria, eu amo muito a minha mãe. Não sou de demonstrar meus sentimentos, guardo muita coisa para mim e eu sei que sempre posso contar com ela pra qualquer coisa. 

Minha mãe é o maior exemplo que eu tenho de pessoa. Ela é gentil, amorosa e tem um coração gigantesco!


Movimento T - A união dos homens trans que transbordam amor.

Quem é o Theo na essência? 

- Eu sou um cara tranquilo quando tem que ser e estourado quando tem que ser. Eu brinco que não tenho pavio e que qualquer coisa me irrita, se alguma coisa minha está fora do lugar que eu deixei ou então quando mexem nas minhas coisas sem a minha autorização, sai de perto, rs! Eu só tenho uma casca e fama de marrento, mas nem sou, é só fachada, talvez seja uma forma de defesa mesmo.  Fico triste quando vejo algum LGBT sofrendo preconceito, me deixa triste quando algum amigo não é aceito pela família porque tenho consciência de que nem todos tiveram ou tem a sorte que eu tive. A sociedade me deixa triste também porque sentimos na pele o preconceito e sabemos que na maioria das vezes não somos aceitos, somos vistos como aberrações, pessoas desvirtuadas, que precisam ir a igreja e que é falta de Deus. Isso não tem nada a ver! Absolutamente nada a ver!  Não só nós trans, mas os LGBT num geral. Pessoas que dizem que temos que morrer simplesmente por sermos nós, é uma hipocrisia enorme porque são muitas dessas pessoas "a favor da família tradicional" que traem, que batem na mulher, que matam e muitas outras coisas piores, eu só quero ser eu e não tem crime algum nisso, aliás, não há nada de errado nisso.


Theo Cavalcanti - Fonte: Instagram

Sabemos que muitas pessoas passam por essa vida sem se conhecer na essência, aqui no Mundo Alma Livre acreditamos que o autoconhecimento é a fonte de todas as respostas para as nossas dúvidas e angústias, nos conte de que forma você busca o seu equilíbrio mental e psicológico para lidar com as adversidades, os obstáculos e o preconceito?

- Para falar a verdade, equilíbrio mental e psicológico é bem complicado para mim, o psicológico às vezes fica bem acabado. Eu faço terapia com psiquiatra (a cada 3 meses) e psicólogo (2x por mês), vivo um dia de cada vez. Não adianta eu sofrer por antecipação se eu sei que não vai resolver nada naquele momento, busco manter a cabeça no lugar e fazer as coisas com calma para sempre resolver da melhor forma.

Sabemos que você faz parte de um grupo de homens trans que lutam e apoiam uns aos outros, nos conte a importância de se fazer parte de um grupo em que todos viveram ou vivem algo semelhante ao que você passou?

- Ter conhecido os meninos foi um presente no ano de 2018, nós temos o tempo de terapia hormonal bem próximo então brincamos que somos irmãos de T (nomenclatura utilizada para o grupo que faz mensalmente aplicações de testosterona). Eles são meus irmãos para sempre, eu amo aqueles meninos, nosso lema é "TRANSBORDAR AMOR".  O grupo é muito importante porque todo mundo ali tem uma vivência parecida, conseguimos conversar sabendo que vai ter alguém ali que entende o que a gente está passando e isso é ótimo, é um apoio tremendo, todo mundo se ajuda e se ama e isso é muito importante, saber que existem pessoas como você e que elas te amam nos ajuda a lembrar que não estamos sozinhos. Nesse grupo, o Gabriel Meinberg teve a ideia de fazer a "vakinha" coletiva no intuito de custear cinco cirurgias: a minha, do Gabriel Oliveira, do Pedro Magalhães, do Theo Dirk e do Dih Isidoro, o custo médio para cada cirurgia é em torno de 13 mil reais, no total precisamos de R$ 53 mil reais ainda.   


homens trans - homens transgêneros
Da esquerda para a direita: Benício (de boné), Theo Cavalcanti, Theo Fish, Pedro Malheiros, Dih Isidoro, Kaio de Lucca, Theo Dirk (de amarelo) e Gab Meinberg.

Nos conte a importância dessa cirurgia para vocês e de que maneira vocês se juntam para arrecadar dinheiro em prol desse objetivo?

Essa cirurgia é muito importante para todos nós, usamos uma faixa de elástico que se chama binder que serve para apertar os seios e deixar o peitoral mais reto, essa é a forma que encontramos para escondê-los, já que se olhar no espelho e vê-los é um grande incômodo para nós homens trans. O binder é um acessório comum para nós, mas nos aperta, da falta de ar, dor nas costas e sabemos o quanto essa cirurgia nos tornará mais livres. Atualmente divulgamos o máximo que podemos para atingir o maior número de pessoas e tentarmos arrecadar as doações, utilizamos as redes sociais e pedimos o apoio de amigos e familiares para alcançarmos o nosso objetivo, divulgamos no Facebook,  Instagram, para alguns youtubers trans, paginas LGBT, enfim.. Agora estamos com a ideia de fazermos algo para vender como camisetas por exemplo, mas ainda estamos pensando sobre isso e com calma.

Esse é o link da vakinha online, quem puder ajudar é só acessar o site e realizar a doação que não demora nem 5 minutos:

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/mastectomia-masculinizadora-coletiva-rj


homens trans


E agora para finalizarmos, nos conte quais são seus planos para o futuro e qual mensagem você deixaria para os nossos leitores do Mundo Alma Livre?

Meus planos para o futuro são terminar a faculdade e fazer minha cirurgia, o resto eu deixo rolar porque tudo acontece quando tem que acontecer, sempre na hora certa. Para os leitores eu diria: Amem mais, respeitem mais

Se você ainda quer saber mais sobre o Theo, seus amigos e o universo trans, siga o instagram: @theocpessoa



apoio trans

Theo é um grande amigo que fiz através das conexões virtuais e que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente em 2012 antes da transição. Essa conversa de alma só reafirmou o que eu sinto e penso sobre a existência humana: viemos para essa vida para evoluir, do nada viemos e para o nada iremos, somos grãos de areia em uma galáxia infinita, todos os rótulos que a sociedade ainda utiliza para classificar pessoas, cor da pele, opção sexual e outros, apenas nos prova o quanto precisamos evoluir para que em algum possível dia a nossa espécie cuide do que realmente é importante nessa breve passagem: o amor e respeito ao próximo. 


Namastê,
Luciana C.

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